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crônicas da vida

AdoCão, CRÔNICAS, VIDA

> É tempo de chuva

22/11/2017

Se tem um dia que é caótico aqui nessa casa, são os dias de chuva.

Tirando a parte do cheirinho de cachorro molhado que é inevitável, molha pata e seca pata para entrar na casa e o tédio por terem menos espaço, os dias de chuva não fazem sucesso com Ringo. Na verdade, é algo como um filme de terror para ele. Não é pela água, afinal ele gosta muito de um bom banho e tomar umas gotinhas de água quando entra de intruso no box do banheiro quando terminamos o banho. É pelo barulho.

Todo cachorro possui uma audição delicada, mas Ringo veio premiado no mundo com muita sensibilidade. Isso requer disposição. Ringo se assusta quando lavamos panelas, procuramos fôrmas de bolo que estão empilhadas e batem um na outra, o vento fecha a porta, cai vassoura no chão e ligamos o aspirador sem ele notar a presença do eletrodoméstico no mesmo espaço que ele. Nem pense em mencionar sirenes e fogos de artifício que, aí, o buraco fica ainda mais embaixo.

Faz duas semanas que tem chovido bastante em São Paulo e Ringo tem passado dias difíceis. Ora ele senta no sofá entre as almofadas, ora ele se enfia na sua caminha debaixo da mesa. Lucy age como se nada estivesse acontecendo. Na verdade, acho difícil algo assustá-la de verdade. Ela senta do lado dele e parece que não entende o que acontece. Nem a gente, Lucy.

Me lembro de algumas chuvas fortes quando eu era criança e o medo realmente dava o ar da graça e eu enfiava uma coberta na cabeça e fingia estar com sono. Até o dia em que meus irmãos me arrastaram para a janela e eu pude ver: água caindo do céu. Não é algo mágico? eu achei.

Eu vi as gotinhas na janela escorregarem e apostarem corrida uma com a outra. As plantas ficavam mais vivas, a rua menos movimentada e o ar parece que ficava melhor de respirar. O famoso cheiro de chuva que nos trazia a brilhante ideia de pedir bolinho de chuva para a minha mãe. Hoje, sinto saudade dessa ingênua chuva.

Infelizmente, Ringo não pode se deliciar com um bolinho de chuva. A gente tenta cantar, brincar e até dar um biscoitinho, mas nada melhora o dia pra ele. Até que resolvemos deixar passar. A gente senta do lado dele e espera. Em algum momento, vem o sol que ele tanto gosta ou ao menos o céu cinza e nublado, para voltarmos ao famoso corre-corre no quintal que a gente adora. Então, Ringo esquece que meia hora atrás chovia.

A gente pode ver beleza nas coisas, mas há momentos em que só nos resta esperar.

Uma hora passa, é o que repetimos para o Ringo quando cai a primeira gota do céu.

Sempre passa.

CRÔNICAS, VIDA

> Somos todos esse turbilhão

21/03/2017

Às vezes a gente some porque precisa. Às vezes até estamos aqui, mas presentes em outro lugar. Às vezes cansamos e desistimos. E em outras vezes damos até a energia e força que não acreditamos ter. Às vezes não encontramos palavras à altura de um momento e, em outras vezes nos atrevemos a chegar perto de descrever o indescritível. Somente por querer fazer a rotina ganhar uma chance de ser narrada com tanta beleza também.

Às vezes qualquer coisa, ocasião ou piada besta nos tira uma gargalhada. Em outros dias, nem que nos paguem é fácil mostrar os dentes. Alguns dias são azuis e tristes, outras tardes são cinzas e cheias de amor. Tem horas na vida em que nada faz sentido e tem dias em que a gente não quer saber o motivo de nada. Às vezes a segurança salta e brota de dentro de nós. Em outros dias, ela vem de alguém e contagia e impregna na gente – ainda bem.

Às vezes a gente sabe bem o que, como e onde quer. Em outras épocas, vale consultar o amigo, buda, pai, mãe, tio e avó para o que devemos fazer. Tem dias que falamos com todos, outros que mal nos damos bom dia ao acordar. Dias de carona para o amigo, dias de pressa para o café e outros dias de voltar caminhando e admirando sem saber bem o quê. Tem vezes que o amor está bem e por outras, infelizmente, vai mal. Mas a vontade de acreditar, ela nunca morre ou falha… Ah! mentira. Todo mundo em algum momento ou instante que deixa de acreditar. E segue amando. Mas, ó, é só de vez em quando.

Às vezes é difícil acreditar que todo mundo vive esse turbilhão de emoções prestes entrar em erupção em que vivemos. Aquela colega sempre maquiada e bem produzida do trabalho, o amigo que só viaja e a vizinha que tem um casamento estável de mil anos. Em outros dias nós conseguimos olhar fora da nossa bolha, do nosso mundo e ver as pequenas amostras de felicidade que são espalhadas por aí. Cada um tem as suas. Tem dias que é fácil enxergar e valorizar. Já em outros… nem nos dizendo, apontando e desejando, nos custamos a agradecer e apreciar. Vamos tentar amanhã? Vamos. Aliás, devemos.

Às vezes, ou melhor, quase todos os dias, vivemos tanto, de tudo, todos e do mundo que só queremos parar um tempinho pra relembrar que a vida nem sempre é fácil, mas vale a pena ser quem somos. Ainda que seja essa coisa confusa e aparentemente sem sentido.

Sempre valerá a pena sermos fiéis a nós mesmos.

Corrida, CRÔNICAS, VIDA

> Você está bem?

06/03/2017

Pergunto porque quero saber mesmo.

Sinceramente, eu não lembrava a última vez que me perguntaram isso querendo saber realmente como eu me sentia.

A vida é uma corrida e agora não falo do ato de correr, mas dessa mania de que parecemos sempre estar com algo para fazer, pensar, como agir, dizer e prosseguir. Todos sem excessão vivem boa parte do dia assim: trabalho, sonhos, alimentação, relacionamento, amizades, família, saúde, isso não é ruim. Mas, convenhamos que é uma infinidade de pautas para resolver e, sim, elas não tem fim.

A verdade é que entra ano e sai ano e nós sabemos pouco das pessoas. Queremos saber o que elas fazem e no que temos em comum, não conhecer QUEM elas são. Afinal, a essência de cada um demanda tempo.

Perguntamos o dia todo qual aplicativo, qual o sapato, batom, tênis, loja, viagem, o lugar, como é isso, aquilo… Mas não paramos para perguntar se alguém ESTÁ bem. Como essa pessoa realmente se sente, como está indo o dia, a vida e os planos. Será que realmente estamos interessados em algo além do que nos convém?  É duro de pensar e admitir.

Dia desses surgiu o momento em que alguém me perguntou se eu estava bem. Disse rápido e rasteiro que sim. A mesma pessoa refez a pergunta “Tá, mas você está bem?”. Foi quando percebi: ela realmente queria dividir o peso do meu dia. Alguém que tinha os seus compromissos, sua vida, afazeres, problemas e, ainda assim, queria jogar papo fora. Queria ouvir eu reclamar dos pêlos que nunca acabam, da quantidade de dúvidas, dos medos e da alegria de ter acertado um bolo naquela semana. Eu falava e a pessoa sorria – ouvir e enxergar o próximo traz a sensação de que não estamos só no mundo. O verdadeiro ato de ser humano.

“Você está bem” não é educação, mas um convite para quem deseja ouvir de outro mundo, não exatamente os segredos, mas aquilo que se têm a dizer e sentir.

Da vida, só levamos as experiências e o que cativamos. É preciso sentir e aprender mais com o ao redor. Independente da velocidade da vida o freio e o acelerador está dentro de nós. Acelere quando precisar, mas freie sem culpa quando sentir que deve. Tudo bem? Espero de coração que sim.

CRÔNICAS, VIDA

> Um dia deixaremos a vida ser como é

21/02/2017

A gente jura saber o que é preciso para viver. A gente bate o pé que temos que ter isso, comprar aquilo, realizar X coisa e ir para tal lugar. O que a gente não sabe, é que, na verdade, não sabemos de nada.

Um dia não criaremos um padrão de como as pessoas precisam ser. Conseguiremos olhar para cada um como um ser humano com vontades, desejos, opções e ideais. Um dia aprenderemos a deixar de lado a rixa, os discursos pré montados e a necessidade de impor a nossa vontade no outro, na família, seja quem for. Daremos a chance de olhar na contramão e exaltar as coisas boas, para ver a beleza do ser diferente e que nos faz tão únicos. Um dia, olhar para quem as pessoas são e não o que usam, estará na moda.

Um dia a gente resolve deixar de ter razão para ser feliz. Não colocaremos nas costas de ninguém a nossa felicidade e a necessidade de adivinhar o que estamos sentindo. Passaremos a apreciar o que é espontâneo e verdadeiro, ainda que seja completamente diferente do que gostaríamos de ver. Um dia gastaremos mais tempo vivendo do que imaginando como as coisas deveriam ser.

Um dia encontraremos pessoas que farão o nosso silêncio ser confortável e com quem fazer nada junto torna-se o melhor programa para qualquer dia da semana. Antes deste dia, aprenderemos que olhar para o lado e ter alguém sorrindo de volta, sem ter motivos, apenas por você estar sendo exatamente como é, é o maior tesouro da vida. Um dia entenderemos que o que levamos da vida, não é nada que se pode pagar, mas somente as relações que construímos, dia após dia, com esforço. Um dia redescobriremos o que é cativar.
Um dia cairemos na real de que o amor é o melhor remédio que podemos usar e que não há contra indicações.

Um dia olharemos a vida, sem pensar no que ainda não temos, e agradeceremos por todos os aprendizados. Um dia deixaremos a vida ser como é. Neste dia, seremos livres.

CRÔNICAS, VIDA

É tempo de (FÉ)rias

22/01/2016

As vezes a gente precisa sair de onde está. Mover-se para um outro cantinho, cômodo, tirar os móveis de lugar, trocar de música, experimentar outra roupa, cortar uma franja. Quando eu era pequena, nunca parava quieta. Minha mãe teve dois meninos e, depois de muita calça rasgada e camiseta suja, veio uma menina que nasceu moleca, rolava na terra, jogava futebol e fazia lutinha na sala de estar com os irmãos. Eu vivia em (fé)rias.

O tempo passou e nunca perdi a vontade de desbravar, conhecer coisas novas, culturas diferentes em cada pessoa ao meu redor. Mas, as proporções mudaram. Meu tempo entre a faculdade, cursos e estágio era inexistente. Apesar de me divertir aqui e ali, confesso, eu não tinha (fé)rias.

Anos se passaram e pude encontrar um pequeno meio termo. O trabalho dobrou, mas parei de depositar a minha felicidade inteiramente nele. Eu era a responsável e, sentia que tinha o meu coração nas mãos, no mesmo ritmo em que ele ainda batia acelerado dentro, só que agora, fora do peito. Fiquei bom tempo sem saber o que era significado da palavra férias.

Foram 15 dias de Sinal fraco de internet, com trabalho adiantado e celular fora de rede. Era eu, a grama e um céu como nunca vi igual. Coloquei de volta o meu acelerado coração em seu devido lugar: dentro de mim. Pude sentir cada batida e movimentação. A respiração era completa, leve e o sentimento da liberdade de me sentir rodeada de verde, é difícil descrever. As vezes a gente precisa mudar de lugar, estar em outro espaço, em uma dimensão diferente para enxergar como somos movidos pela fé que há dentro de nós. A fé de ver o mundo com outros olhos, estar em qualquer lugar e se sentir em casa e agradecer independente do céu estar azul ou não.

As vezes a gente precisa recuperar o espírito de (fé)rias, de quando éramos pequenos para enxergar a vida como uma eterna viagem. Onde preparamos nossas malas, nos livramos de tralhas e renovamos nossa essência a cada etapa e descoberta desconhecida.

As vezes a gente precisa de férias, mas de fé… precisamos integralmente: a vida é uma aventura. Ainda é, como há 20 anos atrás.

Entre crônicas, VIDA

> A GRAMA DO VIZINHO: Você não sabe de NADA

02/11/2015

Quem nunca julgou um livro pela capa?
Duro é que nós insistimos em fazer isso com pessoas…

Mesmo não sendo por maldade, quantas vezes nos pegamos vendo alguém caminhando pela rua e pensamos “Puxa, que vida boa aquela pessoa tem“? Muitas. As vezes olhamos feeds incríveis e pensamos que uma pessoa não sofre ou pior, acreditamos que conhecemos a sua vida. A verdade é que muitas vezes aquela única foto publicada no dia, pode ter sido o registro de 1% de coisa boa e sorriso de uma pessoa que mesmo sofrendo quieta, tentou fazer um visitante ter o dia um pouco melhor que o seu e sorrir também.

Para ilustrar, preciso contar algo que aconteceu dia desses na academia. Uma senhora de mais ou menos 60-65 anos vai todo final de tarde com sua legging preta, camiseta cinza, óculos de armação grossa e um cabelo grisalho chanel cheio de charme. Sempre sorrindo, conversando e filosofando da vida com o instrutor, ela parece ser daquele tipo de pessoa que conversa sobre qualquer assunto por horas. Essa mulher é incrível, pensei a primeira vez que a via.
Um dia eu estava péssima, o dia da foto que contei. Tinha acabado de sair de uma consulta que acabou com a minha semana e a senhora do chanel grisalho estava com um novo instrutor. Ele a incentivava a aumentar um pouquinho a carga do peso para um exercício de braço e ela sorrindo desconversava. Enquanto eu meio de longe, estava atenta as suas piadinhas e pude ouví- la dizer com um tom um pouco mais sério, mas não menos querido: Acho que você não sabe, né? Eu tive uma doença e não tenho uma mama, não posso aumentar o peso.

Naquela hora minha reação foi ficar sem reação, por nunca imaginar que ela teria passado por essa situação. Foi quando pude apenas afirmar dentro da minha cabeça que a gente não sabe de NADA. A grama dessa mulher é verde, pois foi cuidada, capinada, suada, sofrida e regada para crescer forte – eu apenas enxergava a capa da sua história de vida.

As guerras que passamos não concorrem com a nossa felicidade, apenas nos fazem mais humanos. Ao contrário do que pensamos, nós não precisamos ter conhecimento de tudo, precisamos apenas não descartar que as lutas existem para todos. A felicidade é uma fração de segundos e, que felizmente, uma foto ou um olhar conseguem captar. Felicidade é como uma batalha com nosso eu que precisamos travar diariamente. Algo que quando a sentimos desejamos espalhar e retribuir. Justamente pela nossa eterna mania de espiar a grama verde do vizinho e pensar que ele não chora no chuveiro. Vou te contar uma coisa: Ele também chora, mas a maneira como reagimos a isso, é o que faz a diferença.

Sempre que possível vejo a senhora do chanel grisalho nos finais de tarde. Nos sorrimos, balançamos a cabeça acenando boa tarde. Viro as costas e só consigo pensar com ainda mais certeza: Essa mulher é incrível !

Que a felicidade continue sendo espalhada em pequenas doses. Não para contar uma vida de faz de conta, mas para nos dar forças para acreditar em um amanhã melhor e mais verde para todos.

AMOR, Entre crônicas

> Não sei fazer café para um

29/04/2015

Não sei. Me peça café para cinco, seis, sete pessoas e eu farei sem medo, sem frescura e sem errar. Mas, para uma pessoa? não dá.

Sábado de manhã, eu e a cama vazia, branquinha, dois cachorros e um sol gostoso no quarto. Estava tudo bem. Desço as escadas e sou eu versus a chaleira: café. Quem consegue viver sem antes tomar no mínimo um de café? Aqui em casa somos em dois humanos, eu e um barbudo. Passo o café o dia todo para nós e para quem estiver com a gente. Ligo o coração no automático. Puxa, me esqueci! ele não está aqui. Duas xícaras de café para uma pessoa? bom, guardei para depois. Ele me pergunta, “Como está aí, baixinha?” e a resposta é “Tudo óóóótimo” e completo mentalmente – me socorre, não teve café pra um.

Domingo de noite, por que não um cafézinho? expira, inspira e é só diminuir ao meio a quantidade de sempre. Concentração. Ih, deu ruim: amargou. Segunda depois do almoço, sim, tem que ter café pra “assentar” o estômago. Concentração. Não deixa a pouca água ferver demais… Ih, deu CHÁfé, mais fraco que camomila.

Terça de tarde? hora do café! Preguiça de sujar tanto só para uma bendita xícarazinha para mim. Corro na padaria do lado, “um pingado, por favor?”. Mais fácil que admitir que não consegui e que também, meu bem, não vou ficar sem café. Mais fácil me render do que chegar ao quarto dia na tentativa frustada desse imperfeito equilíbrio.

Há quem diga que meus cafés não são os mesmos sem você. Tem um sabor diferente, não é ruim, mas é apenas… diferente. Incompleto? não, diferente. Menos intenso? diferente.

Há quem diga que para fazer um bom café é só seguir um manual, mas não. Fazer um bom café é como fazer o bem para alguém e para sí: quanto mais o outro sorri e esvazia o coração entre uma xícara e outra, mais gostoso o café parece ficar.

Há quem diga e estão certos, os cafés são os mesmos, mas não tem você: a melhor companhia, a melhor pessoa para encher uma xícara, falar da vida, chorar ou rir, entre um gole e outro gole do nosso tão compartilhado e amado café.


para meu barbudo, de uma grande saudade de pequenos 5 dias de coisas simples da rotina.