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Diálogos

AMOR, Diálogos

> Diálogos: Aquele da primeira meia década

23/01/2015

E foi assim: 5 anos atrás eu borrava meu olho inteiro de rímel para ir para a Rua Augusta. Já ele só tirou a havaiana, calçou o tênis, pegou a carteira e também foi. Ele riu comigo e com meus amigos a noite toda. Mas entre os sorrisos dava para ver que eu não queria confiar meu coração a ninguém e ele muito menos. Mas, ainda assim, não paramos de falar e vimos nosso primeiro nascer do sol juntos rodeados de amigos; ali abri o meu coração e minhas histórias mais podriqueiras para um desconhecido que já tinha até ganhado um apelido. Era só um estranho, nunca mais o veria. Na verdade era o cúmplice que eu estava esperando encontrar. Eu que sempre fui mais um livro fechado que aberto, o escolhi para me ouvir e ele me escolheu para escutar.

Dias depois agradeci à vida por simplesmente o ter me apresentado e de repente a família e os amigos dele eram meus, e os meus, os dele. Choramos muito e rimos ainda mais lado a lado e o nosso plano de não ficarmos juntos, não dava certo: já éramos nós e não sabíamos. Ele e eu. E logo depois, nossa família, nosso universo: sincero, com muitos sonhos e sem frescura. Pessoas me perguntavam “Quem é ele?“, e eu dizia: “- Ah, é só um amigo, oras.” A trombada mais inesperada e a melhor e mais demorada ressaca que a Rua Augusta me presenteou, e a quem eu digo sim todos os dias para amar e dividir minhas pizzas e cafés da manhã, tarde e noite.

E aí, quando parei para ver, 5 anos se passaram. Nossa primeira meia década em que ele faz a piada idiota e eu dou a risada. O cara que escolhi para contar meus segredos e também ouvir os dele. É assim. O cara que fiz questão de decorar os seus sorrisos, para o caso de eu não encontrá-lo no dia seguinte. O cara que topou dar um espacinho na mala dele para eu ajeitar minhas coisas e minha vida para ser a nossa. O cara que foi meu cúmplice desde o nosso primeiro encontro, que não foi encontro.

E se hoje me perguntam “Quem ele é?”
“- Ah, é só um bom amigo, um bom amor que escolheu ficar e que faz meu coração sorrir, pois estamos trabalhando no caminho certo. Estamos trabalhando juntos.”
E foi assim que foi amor.

Amor, obrigada.
Que venham muitas meias décadas pra gente se aguentar e viver o melhor que podemos ser.

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Revisão de: Thaís Chiocca

AMOR, Diálogos

> Diálogos: A saudade, o melão e a vida no plural

09/12/2013

Aquela era uma noite de terça-feira, com um calor insuportável daqueles quase impossíveis de dormir. Deitei e fiquei por um bom tempo olhando pra aquele teto gasto e de tinta amarelada, mas aconchegante. Lucy estava deitada esparramada dormindo no piso que estava geladinho. A casa estava ainda com barulho da TV e uma leve brisa das janelas abertas. Escutei de longe os barulhos dos pés dele e uma porta e janela sendo trancadas. Ele chegou, deitou do meu lado e mesmo cansado, resolveu me acompanhar olhando pro alto. Até que saudosamente começamos a falar da vida, vocês sabem: “você ligou pro carreto? a roupa do varal secou?” até “lembra quando tínhamos tempo de sobra para cozinhar? e do dia em que derramei leite na parede?” e assim, ríamos com o passado. Conversa vai, conversa vem. As palavras voaram da minha boca dizendo:
– O que eu mais te ensinei nesses 4 anos? – ele deu uma risadinha e o silêncio ficou no ar.

Eu sabia que minha resposta corria um risco. Na verdade, eram 3 riscos: Primeiro, quem não trava quando nos perguntam essas coisas?. Segundo, ninguém gosta desse tipo de conversa. Terceiro, ele não é um homem de longos discursos, eu sabia, mas de pequenas e doces atitudes. E enquanto tudo isso passava na minha cabeça, ele espontaneamente respondeu:
– Já sei! Tu me ensinou a gostar de comer melão.

Jura, meu amigo?! Mas, na hora eu ri, ri demais. Pois ele disse a coisa mais óbvia dos últimos dias. E ele me abraçava forte rindo sem parar. A luz apagou. A casa agora estava silenciosa e já não tinha mais o teto para enxergar. E então eu que estava para virar, dormir e aceitar a tal resposta do melão como meu troféu em 4 anos de relacionamento e amizade juntos, escuto agora uma voz um pouco mais leve que dizia:

Tu me ensinou a dizer “nosso” e não “meu”.

Sorri por dentro, com todos os jeitos e formatos de sorrir. Pode parecer demais, mas eu sorri assim, eu juro. Sempre tem um lado do amor que se entrega mais rápido que aceita a vida conjunta de uma vez. E eu me lembrei que essa era eu,  há 4 anos atrás, chorando com a maquiagem borrada no travesseiro, pensando e imaginando onde tudo iria parar e se um dia esse alguém saberia conjugar a vida no plural comigo ou se seria apenas mais uma saudade. E ele queria, mas precisava do seu tempo, agora eu entendia. E hoje, divido a saudade do que já vivemos, junto com ele, que sonolento falou com a cabeça enterrada no travesseiro:
– Pequena, você sabe, não se pode viver só de saudade..

Parecia que ele estava ouvindo o que eu pensava ali, quietinha na minha cabeça. Me virei e sorria sozinha por dentro vendo o quanto era bom reviver, redescobrir e renascer. Eu já não era mais uma menina de 18 anos com interrogações apaixonadas no olhar. Eu já sabia respirar e achar graça mesmo se fosse pelo prêmio do melão.

E esse era o tão inocente e fanfarrão do amor, outra vez me relembrando: que nem só de saudade vive o amor. E nem só de pronomes no singular, vive o homem.

AMOR, Diálogos

> Diálogos: Ser feliz ou ter razão

25/11/2013

Existem dias e existem aqueles dias. Ela acorda cedo pela manhã e ele quer dormir até 2 da tarde. Ela liga a tv, faz barulho na casa e nada dele levantar. Ela quer tomar um belo café da manhã e ele? nada com nada, nem se mexe: “Mas que coisa! me deixa dormir”. Foi a deixa para ela dizer que ele não sabe aproveitar o dia, se arrumar e sair. Na rua, ele quer ir para um lado e ela para outro. Ela diz que tem que cortar o cabelo, talvez fazer uma franja para melhorar os ares e ele diz que isso não vai mudar em nada e ela fica bonita de qualquer jeito. Mas, ela nem percebeu o elogio.
Eles vão até uma loja de instrumentos. Ela quer tirar foto e ele não quer saber: “aproveita o momento”, ele diz até com razão, mas ela consegue fazer os dois mesmo que ele não. No caminho ele diz que prefere o álbum Rubber Soul e ela discorda e diz que é o Abbey Road, embora os dois gostem de todos. Ela diz que eles precisam viajar para se conectarem melhor e ele diz que é bobagem e que eles só precisam ir para uma praça relaxar. Na praça, eles deitam na grama, olhando pro alto e ele diz que ela deveria ver mais filmes de terror e zumbi com ele ao invés de se emocionar até com comercial de banco. E ela, começa a chorar.
Eles caminham de mãos dadas e ele troca de lado, pois não quer que ela caminhe pro lado da rua e ela diz que quer ficar daquele lado porque o anel dela esta machucando o dedo. A noite, ele quer ver o tal do filme sanguinário, ela quer fazer uma noite só deles e ele pergunta se não dá pra fazer os dois. Ela nem responde e vai pra cozinha: ele quer comer picanha, ela quer pizza de queijo. Ele diz que o caminho mais curto até a praça era um, ela diz que o caminho mais curto era outro. Ela não pára de falar que vai pedir pizza pra jantar. Ele não quer escutar e muito racional entra no google para medir os kms do caminho e provar.

Ela deita emburrada querendo que apenas hoje eles ficassem mais próximos. Ele assiste ao filme querendo que apenas hoje ela fosse mais parceira. Até que com a luz apagada e olhando pra parede, ela diz:
– Você tem razão.

Ele pausa o filme e vira em direção a ela e diz:
– Eu não quero ter razão. Só quero ficar perto.

Ela ri. Ele ri. Ainda era ele, o desencanado. Ainda era ela, encanada. Ainda estava tudo bem.
Ainda eram do jeito que eram juntos, isso que importava. Ainda tinha riso e outro dia amanhã para tentar conversar e ter um pouco menos de razão. Ela deita sorrindo, abraçando ele forte. Ele fica vendo TV na madrugada acariciando o braço dela mesmo ela morrendo de cócegas. Ele pega o celular e coloca para despertar 9:00 da manhã para tentar vê-la mais feliz amanhã.

O celular toca às 9:00. Ele acorda ela com café. Ela querendo agradá-lo diz:
– Vamos dormir até mais tarde hoje?

E ele, rindo por dentro, diz:  Ah, baixinha, deixa pra lá…

AMOR, Diálogos

> Diálogos: “você só sabe querer”

18/11/2013

Uma noite eu estava no banheiro, secando o cabelo e pensando na vida. Na verdade, apenas pensando na vida, olhando pro nada e segurando o secador sem direção. Me virei e lá estavam os dois, Fabinho e Lucy sentadinhos no chão, brincando um com o outro e olhando pra mim, sorrindo e rindo. Por alguns segundos já não me importei mais com o que estava pensando. Ele percebeu que nem tudo estava tão bem e insistiu para que eu falasse. Encostei na porta e tentei explicar o que nem eu conseguia entender (e olha, minha gente, nem TPM era).
Ele me abraçou ali no corredor. Lucy, por um milagre divino, sentou-se ao lado daquele abraço e ficou olhando e olhando, sem interrompê-lo. Eu me arrisco a dizer que até ela compreendeu o momento que eu precisava. Então, ele olhou pra mim, segurou meu rosto firme e disse, com brincadeira no olhar:

– Você só sabe querer, baixinha.

Fiquei com aquela frase na cabeça por semanas. Mas, sem conseguir entender completamente o que ela queria dizer. Afinal, eu não queria muita coisa! Eu queria apenas que algumas coisas se encaixassem e outras terminassem. Eu queria acampar ou fazer uma mochilão sem frescura, sem muita grana. Queria que o tempo passasse logo, mas também que em outros momentos ele parasse ou me desse mais horas, mais dias e mais chances. É, talvez eu quisesse demais. Sei não.
Outra noite, estávamos pensando no que jantar. Ele, o rei dos junta tudo e põe no prato, me convenceu a comer o que tinha na casa: macarrão, manteiga e um pão. A água começou a ferver e eu disse que queria fazer a compra do mês e queria porque queria e queria. QUERIA. Ele, lavando a louça virou e, mais uma vez, me disse:
– Você só sabe querer, baixinha.
– Não! – e tentando me explicar respondi:  Só tenho saudade de ter mais tempo e opções para cozinhar algo especial pra você, pra gente.
Enxaguando um prato, ele me olhou nos olhos e disse:
– Então… cozinha algo especial pra mim. Que tal um macarrão com manteiga?

Naquele momento, eu me dei conta de quem eu tinha ao meu lado. Não era alguém que me completava, mas alguém que me ensinava o que, no dia-a-dia, estava tão difícil de conseguir enxergar sozinha.

Virei pra ele e disse com sinceridade e sem pensar:
– Por isso que eu tenho você, pra me lembrar do que eu tenho e apenas agradecer por isso.

A vida algumas vezes nos prega peças. Ou melhor, prega toda hora. Afinal, eu fiquei semanas pensando que eu tinha que querer menos. Quando na verdade, o que ele queria me dizer era que eu tinha que olhar ao redor e viver. Viver bem.

Algumas vezes, a vida nos dá pessoas que enriquecem nossa vida. Pessoas que nos fazem olhar o que temos e dar valor. E agradecer por aquele momento sem deixar brechas pra pensar: “Mas eu queria tanto…”
Pessoas que nos fazem querer APENAS viver o bem que temos. Porque, querer fazer o bem, nunca é demais. Certo? ♡

AMOR, Diálogos

> Diálogos: Uma trança e muitos sonhos

16/10/2013

Um dia eu disse a ele que queria ver se meu cabelo estava grande o bastante para fazer uma trança. Mesmo sabendo que meu cabelo é repicado demais, não custava tentar. Afinal, as vezes é bom variar um pouco.
Me sentei no sofá, soltei meu embaraçado cabelo e comecei a dividir. Mecha pra cá, mecha pra lá. Até que percebi que ele me olhava com o canto dos olhos mesmo trabalhando na sala improvisada, percebendo de longe que não estava dando muito certo. Desmanchei a trança muito mal feita e comecei a segunda tentativa do tão desejado penteado. Tentei separar desta vez com mais cuidado e nada da bendita trança colaborar e não ficar torta. Até que ele gentilmente -mas com um pouco de preguiça- levantou e disse:
– Quer uma ajudinha ai? perguntando por obrigação, como se eu fosse negar que precisava.
– Olha, eu quero sim.
– Ahhhh, não sei se sei fazer isso baixinha…


Ele se fez, se fez e se fez. Até que sentou- se atrás de mim e pediu para que eu ficasse no chão para facilitar um pouco pra ele. Ele ria e ria muito, não acreditando que estava fazendo aquilo para alguém. E eu como de costume ria também, com alguns fios de cabelo nos lábios que delicadamente ele os tirava e puxava para a trança que já estava para terminar. Corri descalça até o espelho do banheiro e ele da sala disse:
– Olha, até que não ficou ruim, não é? disse se gabando um pouquinho.
– Não mesmo, esta muito bem feitinha.

Estava de costas para o espelho tentando ver meu cabelo, quando escutei aquelas doces palavras:
– É, se tivermos uma filhinha um dia, depois dessa, eu vou com certeza poder fazer tranças no cabelo dela.

Naquele instante eu já nem lembrava do desastre da minha trança. Eu virei em direção a ele, me encostei na parede e sorria, sorria com os olhos lacrimejando. E ele sorria também: sincero e leve. Foi como um abraço de sorrisos. Afinal, naquele momento eu soube que ele não apenas queria, ele sonhava também.
Tentei dormir com o cabelo como estava. Mas, no dia seguinte, a trança desmanchou. Porém eu olhava meu cabelo frisado e só conseguia sorrir por dentro. Lá estava eu, sonhando com o riso estampado nos meus olhos, apenas porque estávamos pensando no futuro e trançando- o com carinho nas mínimas coisas que nunca imaginaríamos fazer por alguém. Mas que fazem a diferença.

Depois daquele dia, nenhuma simples trança mais foi a mesma.
Era um futuro, trançado de sonho e amor.

AMOR, Diálogos

> O velho mas tão novo amor no ônibus

02/10/2013

Hoje, um dia comum, eu entrei no 847P-10 pra voltar pra casa. Sentei no ônibus e um casal de velhinhos entraram. Ela com um vestido florido e longo com sua bolsinha de couro preta nas mãos. Ele com sua boina que tinha um pequeno furo na frente e uma calça azul marinho.
A senhorinha se senta na minha frente no banco que estava livre e o senhorzinho fica ao lado dela, em pé no corredor segurando sua mão bem forte e fica daquele jeito típico “surfando” no busão. Eu, um pouco intrometida falei:
– Senhor, tem um banco ali do outro lado vazio, não sei se você viu…
Ele olhou pra mim e gentilmente disse:
-Vi sim, obrigado!

Logo depois completou sorrindo e erguendo as sobrancelhas:
– Você acha mesmo que eu poderia deixar uma mulher como essa sozinha? Mas, não pode não viu!?

Eu sorri. E não conseguia mais parar de sorrir.
A moça sentada ao lado da senhorinha fez questão de levantar e dar seu lugar para ele sentar. Embora, ele sem graça disse que não precisava, ela insistiu, também não conseguindo parar de sorrir.

A senhorinha muito meiga virou para mim sorrindo, com o riso sereno muito semelhante ao do senhorzinho, e disse:
– Ele é mesmo muito engraçadinho.

E ele mesmo sentado, continuava a segurar forte a mão dela. Para não deixá-la fugir, parecia. Ou apenas a amava demais mesmo. E provavelmente assim ficaram, até chegarem ao destino deles.

E eu com o sorriso pregado na cara, balancei a cabeça e levantei para descer no meu ponto. Desci a rua de casa, ainda pensando como seria bom encontrar aquele casal e perguntar tantas e tantas coisas que imaginei. “Quanto tempo estão casados?”, “Como você conheceu seu marido?”. Parecia um filme, não daqueles com príncipes ou com a manteiga doriana na mesa. Era mesmo a vida, simples e doce vida daquele casal. Já não importava se eram marido ou esposa ou se ele ajoelhou para pedir ela em casamento com o pôr do sol no fundo.
Eles eram parceiros, parceiros de vida. Dava pra sentir.

Abri a porta de casa, sorrindo e digitei este texto, ainda sorrindo.
E espero que você que esteja lendo, permaneça sorrindo também.