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VIDA

CRÔNICAS, VIDA

> Continue a sonhar…

05/06/2017

Um dia uma professora de literatura tomou da minha mão um caderno em que eu escrevia. Eu contava que aquilo uma hora iria acontecer, afinal eu vivia com ele colado em mim. Eu diria que aquele caderno grande e de capa dura, era quase uma extensão dos meus confusos e intensos pensamentos. Eu passava aulas e aulas escrevendo, olhando ou batucando a caneta nele. Não era por mal: eu estava apenas escalando dentro de mim.

Aquela professora de literatura era alta, com cabelo curtinho e tinha uma voz forte e grave. Ela era do tipo que fazia todo mundo gostar da matéria dela, devido a paixão que transmitia em cada frase que recitava. Ela era exigente e, por muitas vezes, brava. Portanto eu sabia que estava ferrada. No final da aula ela me chamou, esperou todos saírem para o intervalo, me entregou o caderno com um sorriso no rosto e mantendo todos dentes visíveis, disse:
– continue escrevendo.

Eu não tinha muito o que dizer. Ninguém nunca tinha aberto aquele caderno além de mim, por isso estava um pouco envergonhada. Abracei o meu caderno, fui até a minha mesa, agachei e o coloquei no bolso mais escondido da minha mochila. Ajustei meu agasalho no corpo, acenei com a cabeça e sai apenas escutando o som dos meus pés no piso de madeira. Nós duas nos entendemos naquele silêncio. Eu continuaria a escalar e ela me ajudaria a criar asas.

Por anos mostrei meus pequenos versos para ela. Ela sorria, me entregava e sempre dizia firme, “continue”. Ela não fazia nenhuma marcação de caneta vermelha e nem colocava uma nota no canto direito do papel. Continuei a escrever, mas com o tempo passou a ficar mais difícil. Eram verbos, conjugações, acentos, pontos e vírgulas para me preocupar. Resolvi um dia perguntar para ela sobre uma dúvida em um texto e ela bateu a capa do caderno, como se fosse uma gaveta antiga, com força e apenas me disse: continue.

Um dia ela leu e não sorrio. Pensei ter escrito besteira, mas pude ver uma lágrima que ela não fez questão de enxugar, presa no cantinho dos olhos. Peguei meu caderno, não disse nada e caminhei em direção a saída. Antes de passar pela porta, ela disse:
– continue com o coração.

Naquela idade eu não entendia bem o que aquilo poderia significar. Achei que era mais uma das maluquices da cabeça dela. Anos depois, eu colecionava cadernos e arquivos .txt no computador sem nunca mostrar para ninguém. Até que chegou o dia em que a pessoa que eu estava envolvida, leu um texto que eu tinha deixado aberto no computador e me disse:
– caramba, você assassina o português. Dei uma risada alta, forçada e respondi com ar de indignação:
– isso aí? não é nada. Nem deveria estar aí.

Com dor no coração eu coloquei as mãos no mouse e deletei o arquivo na frente dele. Eu estava errada e sabia. Aquilo era sim alguma coisa. Era algo que meu coração, com palavras tortas e erradas, tentava dizer. Nunca mais escrevi. Bem tonta.

Depois disso tive 3 blogs onde eu atualizava e uma semana depois apagava. Não compartilhava com ninguém e torcia para que ninguém lesse. Um tempo depois, me vi sozinha e escrever virou minha melhor companhia. Comecei a tentar estudar, ler, me informar e passei a me importar em concretizar. Eu me ouvia, criava, escrevia, fotografava e pintava. Fazia o que sentia que gostaria de fazer abraçando todas as imperfeições.

Um dia conheci alguém que se tornou meu grande amigo em poucos minutos de conversa. Ele viu uma foto e leu um texto meu e olhando nos meus olhos, me disse:

– você deveria considerar trabalhar com isso. Ri na cara dele. Falei que nunca ninguém entenderia minha cabeça confusa e, ele ainda olhando para o texto, continuou:
– ainda que alguém irá revisar para você futuramente, podemos melhorar tudo isso juntos com o tempo. Mas continue.

Continuamos até hoje amigos e me tornei esposa dele. Também continuo até hoje assassinando o português, errando regras de fotografia e falando de maneira confusa muitas vezes. Não me orgulho. Leio, me informo, releio, pesquiso: merdas passam, a essência fica. Decidi que não iria mais virar um entulho de sonhos por medo de errar ou por tentar sempre acertar em tudo. Com tudo. Com todos.

Hoje não sou expert em nada, somente em falar e dar ouvidos ao coração. Em resposta leio mensagens e recados que me fazem dormir em paz, pois mais do que ganhar o prêmio da língua portuguesa ou um troféu na fotografia, consegui tocar um coração ou causar uma reflexão sobre a vida.

Continue. Com o que você tem, com o que pode, com o que sente, com a sua verdade. A gente aprende. Continue.

Se não tem aquilo, vai com isso. Se falta outra coisa, teste e valorize a que tem.
Só não desista do que te faz bem e traz paz. Alguém precisará cruzar com isso no caminho da vida e ficará com o que é bom e é essencial.

Você já sabe o que eu vou dizer agora, mas repito quantas vezes forem precisas, pois repetiram e repito todos os dias para mim…

Continue. Continue com o coração.

CRÔNICAS, VIDA

> Nem todos os dias são fáceis

09/05/2017

Nem todos os dias são fáceis. Pouca gente fala, mas todos sabemos disso.

De alguma maneira parece que em alguns dias acordamos com toda energia, fé e vontade para fazer tudo que sonhamos acontecer. Em alguns dias acreditar e confiar é quase rotineiro e espontâneo. Em dias assim, não importa o que deu errado ou certo: O dia será bom. Ainda que não seja, o dia será bom e não precisamos sequer dizer para nós mesmos isso.

Por outro lado, existem dias em que o peito aperta, a cabeça não dá trégua e confiar no tempo é uma tentativa quase em vão. Dias em que não importa que tudo esteja bem: Não conseguimos ver isso e muito menos, agradecer. Nestes dias, não importa qual frase positiva se repita. Não é fácil se convencer do que não conseguimos acreditar.

Torcer para um dia passar rápido soa triste. Afinal, se pararmos para pensar, viver a vida é um presente e uma chance única que temos para administrar em nosso tempo. Sim, você deve ter pensado que há dias que é difícil lidar até mesmo com isso. E é verdade.

Muitas vezes a expectativa ou a ansiedade atrapalham nosso coração de enxergar que as coisas nem sempre dão certo no momento agora. Muitas vezes a vida irá no surpreender no futuro e, para isso acontecer, é necessário tudo que precisamos passar no passado e no presente. Então, os dias não tão fáceis existem, não para que passam logo, mas para aprendermos algo.

Existem dias em que vivemos pouco e sobrevivemos muito. Hoje, estou aqui para lembrar que dias assim passam. Assim como os dias eufóricos de felicidade. A vida é uma balança que precisamos estar dispostos a nos equilibrar e a desvendar.

Este texto é apenas para lembrar que nem todos os dias são fáceis, mas nem todos também serão difíceis assim. O seu pode ser hoje, de alguém ontem e o meu amanhã. A vida é um presente surpresa. Esteja pronto para aceitar e desembalar. Um dia, um pacote, um desafio e um mundo por vez.

Nem todos os dias são fáceis. A gente aguenta. A gente aprende.

CRÔNICAS, VIDA

> Somos todos esse turbilhão

21/03/2017

Às vezes a gente some porque precisa. Às vezes até estamos aqui, mas presentes em outro lugar. Às vezes cansamos e desistimos. E em outras vezes damos até a energia e força que não acreditamos ter. Às vezes não encontramos palavras à altura de um momento e, em outras vezes nos atrevemos a chegar perto de descrever o indescritível. Somente por querer fazer a rotina ganhar uma chance de ser narrada com tanta beleza também.

Às vezes qualquer coisa, ocasião ou piada besta nos tira uma gargalhada. Em outros dias, nem que nos paguem é fácil mostrar os dentes. Alguns dias são azuis e tristes, outras tardes são cinzas e cheias de amor. Tem horas na vida em que nada faz sentido e tem dias em que a gente não quer saber o motivo de nada. Às vezes a segurança salta e brota de dentro de nós. Em outros dias, ela vem de alguém e contagia e impregna na gente – ainda bem.

Às vezes a gente sabe bem o que, como e onde quer. Em outras épocas, vale consultar o amigo, buda, pai, mãe, tio e avó para o que devemos fazer. Tem dias que falamos com todos, outros que mal nos damos bom dia ao acordar. Dias de carona para o amigo, dias de pressa para o café e outros dias de voltar caminhando e admirando sem saber bem o quê. Tem vezes que o amor está bem e por outras, infelizmente, vai mal. Mas a vontade de acreditar, ela nunca morre ou falha… Ah! mentira. Todo mundo em algum momento ou instante que deixa de acreditar. E segue amando. Mas, ó, é só de vez em quando.

Às vezes é difícil acreditar que todo mundo vive esse turbilhão de emoções prestes entrar em erupção em que vivemos. Aquela colega sempre maquiada e bem produzida do trabalho, o amigo que só viaja e a vizinha que tem um casamento estável de mil anos. Em outros dias nós conseguimos olhar fora da nossa bolha, do nosso mundo e ver as pequenas amostras de felicidade que são espalhadas por aí. Cada um tem as suas. Tem dias que é fácil enxergar e valorizar. Já em outros… nem nos dizendo, apontando e desejando, nos custamos a agradecer e apreciar. Vamos tentar amanhã? Vamos. Aliás, devemos.

Às vezes, ou melhor, quase todos os dias, vivemos tanto, de tudo, todos e do mundo que só queremos parar um tempinho pra relembrar que a vida nem sempre é fácil, mas vale a pena ser quem somos. Ainda que seja essa coisa confusa e aparentemente sem sentido.

Sempre valerá a pena sermos fiéis a nós mesmos.

Corrida, CRÔNICAS, VIDA

> Você está bem?

06/03/2017

Pergunto porque quero saber mesmo.

Sinceramente, eu não lembrava a última vez que me perguntaram isso querendo saber realmente como eu me sentia.

A vida é uma corrida e agora não falo do ato de correr, mas dessa mania de que parecemos sempre estar com algo para fazer, pensar, como agir, dizer e prosseguir. Todos sem excessão vivem boa parte do dia assim: trabalho, sonhos, alimentação, relacionamento, amizades, família, saúde, isso não é ruim. Mas, convenhamos que é uma infinidade de pautas para resolver e, sim, elas não tem fim.

A verdade é que entra ano e sai ano e nós sabemos pouco das pessoas. Queremos saber o que elas fazem e no que temos em comum, não conhecer QUEM elas são. Afinal, a essência de cada um demanda tempo.

Perguntamos o dia todo qual aplicativo, qual o sapato, batom, tênis, loja, viagem, o lugar, como é isso, aquilo… Mas não paramos para perguntar se alguém ESTÁ bem. Como essa pessoa realmente se sente, como está indo o dia, a vida e os planos. Será que realmente estamos interessados em algo além do que nos convém?  É duro de pensar e admitir.

Dia desses surgiu o momento em que alguém me perguntou se eu estava bem. Disse rápido e rasteiro que sim. A mesma pessoa refez a pergunta “Tá, mas você está bem?”. Foi quando percebi: ela realmente queria dividir o peso do meu dia. Alguém que tinha os seus compromissos, sua vida, afazeres, problemas e, ainda assim, queria jogar papo fora. Queria ouvir eu reclamar dos pêlos que nunca acabam, da quantidade de dúvidas, dos medos e da alegria de ter acertado um bolo naquela semana. Eu falava e a pessoa sorria – ouvir e enxergar o próximo traz a sensação de que não estamos só no mundo. O verdadeiro ato de ser humano.

“Você está bem” não é educação, mas um convite para quem deseja ouvir de outro mundo, não exatamente os segredos, mas aquilo que se têm a dizer e sentir.

Da vida, só levamos as experiências e o que cativamos. É preciso sentir e aprender mais com o ao redor. Independente da velocidade da vida o freio e o acelerador está dentro de nós. Acelere quando precisar, mas freie sem culpa quando sentir que deve. Tudo bem? Espero de coração que sim.

CRÔNICAS, VIDA

> Um dia deixaremos a vida ser como é

21/02/2017

A gente jura saber o que é preciso para viver. A gente bate o pé que temos que ter isso, comprar aquilo, realizar X coisa e ir para tal lugar. O que a gente não sabe, é que, na verdade, não sabemos de nada.

Um dia não criaremos um padrão de como as pessoas precisam ser. Conseguiremos olhar para cada um como um ser humano com vontades, desejos, opções e ideais. Um dia aprenderemos a deixar de lado a rixa, os discursos pré montados e a necessidade de impor a nossa vontade no outro, na família, seja quem for. Daremos a chance de olhar na contramão e exaltar as coisas boas, para ver a beleza do ser diferente e que nos faz tão únicos. Um dia, olhar para quem as pessoas são e não o que usam, estará na moda.

Um dia a gente resolve deixar de ter razão para ser feliz. Não colocaremos nas costas de ninguém a nossa felicidade e a necessidade de adivinhar o que estamos sentindo. Passaremos a apreciar o que é espontâneo e verdadeiro, ainda que seja completamente diferente do que gostaríamos de ver. Um dia gastaremos mais tempo vivendo do que imaginando como as coisas deveriam ser.

Um dia encontraremos pessoas que farão o nosso silêncio ser confortável e com quem fazer nada junto torna-se o melhor programa para qualquer dia da semana. Antes deste dia, aprenderemos que olhar para o lado e ter alguém sorrindo de volta, sem ter motivos, apenas por você estar sendo exatamente como é, é o maior tesouro da vida. Um dia entenderemos que o que levamos da vida, não é nada que se pode pagar, mas somente as relações que construímos, dia após dia, com esforço. Um dia redescobriremos o que é cativar.
Um dia cairemos na real de que o amor é o melhor remédio que podemos usar e que não há contra indicações.

Um dia olharemos a vida, sem pensar no que ainda não temos, e agradeceremos por todos os aprendizados. Um dia deixaremos a vida ser como é. Neste dia, seremos livres.

VIDA

> Feliz ano novo, novo mesmo!

02/01/2017

Eu sempre começo ou termino o ano com um texto aqui no blog. Desde o começo foi assim. Parece que eu tinha as palavras na ponta da língua e quase faladas do coração. Este ano foi diferente.

2016 me deixou sem palavras com alguns momentos de tirar o fôlego de felicidade, até dias difíceis que nunca imaginei que poderia imaginar passar. Engraçado, o ano não foi ruim, apenas dureza. Encerrei os últimos dias simplesmente querendo ser e estar inteira no momento presente. Fiz o que tinha pra terminar e fazer. Não fiz lista e não parei para sonhar. Dá um certo frio na barriga pensar assim. Um certo receio de perder tempo, fazer errado, parecer desleixada com o futuro. A gente perdeu o costume de viver por viver.

Logo eu quem gosto de planejar, tentar organizar e curtir o caminho antes, ainda não fiz. Ando deixando cada dia ser como tem que ser, como eu ainda não planejei. Sigo, até agora, me surpreendendo: com o nada, com algo, com a vida.

Em 2017, quero bater no peito com responsabilidade de fazer o meu melhor para viver a vida da melhor forma. Afinal, não somos feitos só de desejos. A saúde, a paz, o amor vem de cada um.

Este será um ano diferente, pelo visto. Um ano para aprender: amar e viver. 2016 foi para ensinar que a gente aguenta. Que a gente precisa. Parar de perder tempo, discutir por bobagem, colocar a intolerância de lado e só querer que aquele futuro brilhante chegue logo. O futuro é o agora.

Em 2017, quero viver a vida que tenho para viver. E é isso. Achei que não tinha nada para dizer e escrever aqui. Talvez este único item já tome a lista inteira. Que bom! Este é mais um ano que gente se vê aqui com muitas histórias – tudo indica. 🙂 Vamos com frio na barriga mesmo!

Feliz ano novo, migos!

CRÔNICAS, VIDA

> O que é pra ser, vai ser.

19/12/2016

“O que é pra ser, vai ser”, parece tão óbvio, tão simples, mas, claro, não é.

A gente cresce ouvindo uma lista gigantesca de desculpas esfarrapadas do porquê as coisas não deram certo para gente. Porquê o time não ganhou, não foi convidada para a festa, o dia não foi bom, o sonho não deu certo neste ano. A única verdade e que é dura de aceitar é: não deu certo, porque não deu.

Da mesma forma que “o que é pra ser, vai ser”, o que não é, não vai ser.

Essa frase na negativa, não soa tão bela quanto a famosa no título. É óbvio. A gente só quer pensar no que pode dar certo, no que irá sair tin-tin por tin-tin de como sonhamos e imaginamos que nos fará bem. Quando deveríamos no preparar para pensar e aceitar que as coisas irão dar errado. Não uma, ou duas, mas algumas vezes na vida. Não dar certo nem sempre é sinal de que deu errado.

Não importa se você guardou o seu sonho a sete chaves em um diário, se contou pra meio mundo, se nunca nem o escreveu em um papel de guardanapo, se comentou com a fofoqueira das amigas. Se for pra ser, vai ser. MAS, é bom saber: se não for, não vai ser. A gente aponta que a culpa foi do olho gordo, da fé que colocamos demais ou do medo que surgiu. Por que parece ser tão difícil aceitar que não foi a hora certa?

Aceitar quando as coisas não acontecem como a gente quer é dar um peso mais leve para o nosso mundo. Carregar uma mala mais compacta e sem excessos para viver. É desejar que a vida aconteça e, que talvez, se molde em como sonhamos e desenhamos em nossos sonhos. A gente nem sempre sabe o que é melhor pra nós. É triste lidar com isso. A gente sabe o que é bom agora, olhando para frente. Contar com o tempo das coisas é aceitar uma visão de andares mais altos do que podemos enxergar. Um plano.

Queria que tudo acontecesse como imagino? É claro. Algumas vão. Outras a vida irá ensinar que eu estava bem enganada sobre a felicidade, outras irá surpreender ou esfregar na nossa cara que foi muito melhor assim. Pode não ser hoje, amanhã, ano que vem ou no próximo ano bissexto. Em algum momento vai.

Corre, luta, estuda, treina, aprimore, sonhe, planeje, invente, crie, faça contas, invista. Se for pra ser, vai ser. Senão for, resta aprender e agradecer. Não arranja culpa ou desculpa. Algo foi preciso levar disso.

As coisas nem sempre dão certo, infelizmente, mas quando dão são inesquecíveis e incríveis. Acredite. Quanto ao tempo e o que a vida acha melhor para cada um, não há o que fazer. Aceite. Faz parte – ou não faz. Vai saber.