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AMOR

AMOR, CRÔNICAS

> “O casamento dos sonhos”

07/02/2017

Casamento dos sonhos é o amor que decidiu lutar e, isso sim,
merece ser celebrado todos os dias.

Alguns possuem um enxoval completo e uma lista de presentes com todos os itens inimagináveis. Outros conseguem juntar com esforço tudo que possuem, financeiramente e dentro de sí, para começar um sonho de ter alguns metros quadrados no mundo e dormem alguns meses no sofá de dois lugares. Alguns usam um vestido branco, enquanto outros, tentam entender como um moletom velho e desbotado pode causar algum ataque de paixão durante a noite. Para uns, uma praia é necessária, outros um sítio, um quintal, uma igreja ou restaurante. Alguns ainda preferem viajar o mundo, outros nem pensam em nada disso. Em todos os sonhos existe algo em comum: o amor.

Casamento é uma forma de dizer que sim, você acredita no amor de uma forma única e especial. É unir famílias, amigos e dividir o bolo da tarde que sobrou com o vizinho. É multiplicar as contas, somar roupa suja, dividir a sujeira dos cachorros e as manias de arrumar a casa. Quando imaginar o futuro e envelhecer ao lado deste alguém, não é problema, mas uma aventura. Casamento é somar, dividir e multiplicar, não subtrair.

Casamento é virar o mundo de ponta cabeça para tirar um sorriso do outro quando um cano na casa estoura. É ser criativo quando acaba a luz da casa e só se consegue pensar no prejuízo do freezer cheio de comida. Revezar quem vai levar o lixo, comemorar que achou chocolate na despensa em um sábado chuvoso e esperar o outro para jantar ou ser compreensivo quando isso não foi possível. Casamento é comemorar que no final do ano não tem IPTU e que o outro arranjou uma desculpa para ir na Leroy no meio da semana.

Casamento é sentir o mundo em uma pele diferente. É sonhar outros planos e arranjar maneiras de realizá-lo. É sentir o medo, a ansiedade e o cansaço da outra pessoa no final do dia. Casamento é uma forma de viver mais emoções do que o normal. É desbravar a vida com um olhar diferente e criar laços em qualquer lugar do mundo, pois a companhia é agradável. Casamento é assinar que quando as brigas existirem, não há para onde fugir, mas você também, no fundo, não deseja ir para nenhum outro lugar. É quando o sonho da casa própria existe mesmo sem um teto, pois a casa é construída um no outro. 

Casamento é dizer sim a cada dia para as melhores qualidades do mundo e os piores defeitos que está dentro de alguém. Alguém que te deixa doido, mas que é impossível não amar, pois é o mesmo alguém que te faz se sentir confortável em ser quem você imperfeitamente é. Casamento é chorar quem nem criança quando o trabalho não dá certo, rir até a barriga doer assistindo uma série na tv e quando a admiração não tem começo e nem fim. Casamento é quando a realidade de cada dia quer seja dura ou divertida é mais gostosa com essa outra pessoa.

Casamento é uma forma de celebrar a vida. Alguns resolvem festejar ao pé da letra, outros não aguentam esperar e já se mudam e outros nem desejam. Mas, casamento, CASAMENTO, existe quando a vida e os sonhos se misturam de uma forma que é impossível de separar. Com ou sem papel, anel ou um kit novo de panelas.

Casamento é dos sonhos quando o amor é o primeiro convidado da lista.
O que virá depois é festa e celebração. Um dia, a cada dia ou todo dia. Depende da disposição.

AMOR, CRÔNICAS

> 7 anos de nós

24/01/2017

23 de janeiro de 2010 foi o dia em que o conheci. Eu demorei para memorizar a data, mas aquele dia, nunca saiu da minha cabeça. Lembro que desejei ser amiga dele. Eu sentia e sabia que poderia aprender muito-muito mais sobre a vida ficando por perto. Acabei aprendendo sobre ele. Decorando os gostos quando íamos tomar café na padaria e de como ele adorava chegar num parque e tirar os chinelo para pisar na grama. Eu, que sempre fui uma pessoa de planejar as coisas, conheci o cara que era “vamos? agora?”, e no geral, eu respondia vamos. Sentia- me confortável com o mundo dele. Mesmo que ainda não cogitasse passar o resto da minha vida com ele, vivíamos muitas vidas em um dia só. Sem pressa: Rimos, choramos, choramos de rir, brigamos por causa do celular velho dele que nunca funcionava, inventamos de trocar o rejunte do banheiro e ele comeu o meu bolo queimado e disse que estava bom.

Muita coisa mudou desde então. De um, nos tornamos dois, para virarmos quatro e muito mais com toda família e amigos que multiplicamos. Somos mais fortes e mais bobos juntos. Ainda não realizamos nem metade do que planejamos. Nem sei se conseguiremos fazer tudo, mas nos tornamos pessoas muito melhores e mais vivas lado a lado.

É isso que o amor faz. E é isso que levamos da vida.

AMOR, CRÔNICAS

> Meu Amor Tem Nome

10/01/2017

Quando o conheci adorava como se divertia com a rotina e qualquer coisa. Confesso, esperava o ano em que este encanto passaria. Depois parei de contar e comecei a apreciar. Fábio chora de rir de coisas que me deixam doida. Ri do leite que joguei sem querer na parede, do tênis atolado de lama, do chão imundo de patas, de ficar suado após andar de bike para encontrar alguém ou trabalhar. Fábio dá jeito pra tudo para aproveitar o agora. Espero que, com os anos, este dom, seja contagioso.

Fábio tem outro dom, ele não precisa me levar para o fim do mundo para colecionar lembranças incríveis. Nosso hobby virou planejar e administrar. Um mês trocamos as panelas, no outro vamos em um lugar diferente. Eu me empolgo, mas ele aprendeu a sonhar quietinho e vai me contando conforme dá. Já sabe que não pode me dar tanta corda assim pra voar – mas me deixa solta pra ir e vir ou pousar.
Fábio não tem medo da vida ser pacata. Ele também sabe quando estou envergonhada e tenta contornar a situação contando que estou envergonhada. Fábio me envergonha. No começo me deixava indignada como ele jurava que sabia tanto de mim. Odiava como ele tinha razão. Depois, paramos de querer ter razão. Hoje, pergunto pra ele o que eu quero jantar. Fábio se diverte com meus defeitos. Conta sempre como ocupo 70% da cama, porém não cansa de dividí-la comigo. Mas, não se conforma como sempre deixo a chave do lado de fora da porta.
Fábio observa tudo ao redor e se diverte quando choro sem explicação. Adora quando falo com a voz mais idiota possível com o Ringo e quando faço jingles para a Lucy. Fábio gosta de me ver feliz por nada. As vezes faz uma dança idiota para isso acontecer ou sorri calado quando canto “que vida boaaaa” depois de tomar banho no chuveiro que enchi o saco para ele comprar uma ducha forte. As vezes canto só para vê-lo sorrir. E a vida é boa.
Dos 3 choros que vi nos olhos de Fábio em quase 7 anos, um deles foi ao me ver abobada quando me deu um violino de aniversário. Fábio se emociona com gente feliz. E presenteia muito bem. Eu sou péssima, não lembro data, nome, rosto. Fábio decora até o semblante dos meus colegas que ele não conhece pessoalmente. Acho incrível. O recomendo para todo mundo como amigo: Ele dá chance para tudo. E como! Fábio acredita até demais nas pessoas. Digo orgulhosa e surpresa que carreguei o saco de 20kg de ração dos cachorros sozinha e ele diz “eu acredito, pequena”. Achava que era difícil surpreendê-lo, mas é o contrário. Ele não vê ninguém como pequeno. Fábio não precisa de nada para estar bem e eu não canso de apreciar isso. Afinal, é encantador dividir a vida com o amor.

Admito: antes eu não ligava muito para o nome Fábio. Depois acabei me apaixonando pelo nome também, e sorrio com os olhos fechados antes de pronunciar o Fá, mas o chamo mesmo é de Fabinho. Resolvi mudar este texto de “você” para Fábio para fazer mais sentido. A pessoa que me deixou sem palavras, a mesma que eu poderia escrever por linhas e linhas sem perder o sorriso. Com quem fez todo o sentido e trouxe um nome para o meu verbo amar.

Bom, já repeti demais, deu pra decorar.

AMOR, CRÔNICAS

> Amar é nem mais e nem menos

18/10/2016

Amar é seguir uma lógica diferente.

É abrir espaço no coração, na agenda, no encontro na semana e para a vida ganhar um novo enredo. É conhecer, desvendar e se entreter com o simples fato de ser junto com alguém e, isso render boas risadas. Amar é juntar. Os pedaços remendados do coração, os sonhos, planos perfeitos ou furados e, quando a vida colaborar, arranjar um novo endereço para dois. Amar é multiplicar. Lotar os armários, colocar meias na mesma gaveta e sair com pé de um e o pé do outro, sem se importar. Amar é dividir. A mesma máquina de lavar, contas para pagar e o restinho do almoço no jantar. Amar é somar. Tupperwares de todo tipo na despensa, ter uma xícara de café na mesa a mais e trazer grandes novos amigos para o bar. Amar é contribuir. Para que o café do outro não amargue e, na medida do possível, garantir que o fim do dia seja paz. Amar é torcer. Para que o quarto não tenha goteira, o freela não caia bem no final de semana e que as pizzas no domingo chuvoso não atrasem.

Amar é deixar livre para escolher estar.

Como uma amizade de infância, sem contrato ou supervisão, apenas sonhos para o futuro e uma admiração de outro mundo a cada dia. Amar é uma chance. Para conseguir domar o tom da nossa voz, aprender a entender os motivos de alguém e confiar, por simplesmente confiar. Amar é saber. Quanto adoçar do café, sorrir quando ver no cardápio a sobremesa preferida do outro e notar quando uma lágrima silenciosa começa a se formar. Amar é não saber. Como agir, contar uma notícia ruim sem magoar e de onde tirar forças para travar a vida, mas continuar.

Amar é adorar a rotina, afinal você a divide com alguém que mais curte no mundo.

Com uma parceria que sabe os teus filmes preferidos, quando você quer estar só sem dizer uma palavra ou quer um gole de vinho para salvar. Amar é aceitar. Que os encontros agora são conversas sem fim no sofá, no sábado o traje de gala é aquele moletom surrado e domingo é dia de força tarefa para faxinar. Amar é ver a vida com outro olhar, novos planos, sentidos e com uma lógica diferente para cada dia. Nem melhor, nem pior.

Amar é fazer alguém se sentir mais confortável de ser quem é para o mundo.

É arrancar o melhor que podemos ser trabalhando com o tempo das coisas e as presepadas que começarem a surgir. Amar é completar. Frases do outro, contar uma história no mesmo ritmo e pegar os mesmos trejeitos que a gente não aguentava mais lidar e, que, agora faz parte de você. Amar é ser amigo. A mistura da pessoa mais legal do mundo com a que mais pega no nosso pé, quem dá um nó na cabeça de nervoso é a mesma que arranca um sorriso besta no meio do dia. Amar é deixar ir. Para onde quer, com quem quiser, rir, divertir e esperar ansioso para voltar, contar e sorrir com o riso do outro mesmo longe. Amar é tolerar. O que é novo, diferente e não ter medo de lidar com o desconhecido de alguém. Amar é compreender. Quando o outro não atende o celular, diz que não tá afim de fazer nada e muda os livros da casa de lugar. Amar é se reequilibrar. Em novos tons e melodias de outro coração.

Amar é ter tudo em um verbo só e, ainda assim, manter a leveza de ser. E só.

Amar é quando dá gosto de viver a vida ao lado de alguém. Nem mais, nem menos.

AMOR, CRÔNICAS

> Foi bom te encontrar

22/09/2016

Amor,

dia desses passei em frente aquela cafeteria que costumávamos ir. Me dei conta que já se passaram bons anos desde então…

A gente nunca teve um primeiro encontro oficial, só resolvemos tocar a vida juntos. Era aconchegante como o encontro entre amigos de infância. Era familiar. Resolvemos arriscar. Para mim todas aquelas xícaras de café carregavam a mesma emoção de um jantar à luz de velas. A gente se observava o tempo inteiro.Você bem mais do que eu, confesso. Entre um gole de café e outro, nossos olhos espiavam por cima da xícara, como quem tenta conhecer em cada segundo o que o outro acha do mundo: de onde virá a expressão de graça, o riso ou a surpresa. Eu sempre pedia o bolo caseiro do dia e você algum lanche ou pastel tamanho família. A gente sempre se deixou ser.

Esta foi a minha maior paixão em nós antes de sermos nós: simplesmente éramos e fazíamos isso bem juntos.

Você com a sua cabeça racional demais e eu com meu coração que precisa de um toque de poesia pra pulsar. Duvidei que isso seria uma boa mistura. E o tempo me mostrou que a gente queria se aguentar. A gente ria sem parar, ou melhor, rimos. Talvez este tenha sido nosso hobby preferido nestes quase 84 meses juntos. “O que vocês gostam de fazer em casal?, para onde gostam de ir? onde gostam de comer?” Qualquer lugar que seja permitido rir e de preferência alto. E estava feito. “Eu não tô apaixonada, só gosto de estar perto e rir junto com ele”, acredita que uma vez nos defini assim? Pois é. Muita coisa mudou, mas ainda bem, que isso não mudou em nada. Porém, hoje eu não tenho medo de me deixar apaixonar a cada dia pela mesma pessoa.

Era engraçado como o tempo passava devagar naquela época. Eu madrugava para trabalhar, saia para te encontrar, ia para faculdade, fazia curso e o tempo naquela varanda enquanto falávamos bobeira custava a passar. Hoje, ele voa tanto que não consigo mais contar. Me esqueço, me perco. Que bom que você também não é dos bons de lembrar. Na verdade foi ao seu lado que pude sentir dentro do peito, o sentimento de celebração diária, que não precisar ser ao pé da letra. É todo dia que nos olhamos, rimos ou choramos e vivemos juntos. Temos grandes motivos para comemorar o amor que um dia decidimos cativar. É todo dia que agradeço.

Dia desses você me avisou que estava saindo do trabalho, igual faz todo bendito sábado. Senti frio na barriga. Aquele geladinho que é o sinal da alma quando está plena. Quando se confia que algo te trará paz e não vê a hora de chegar. Aquela paz silenciosa, mansa e que custamos a notar. Fiquei sorrindo feito trouxa. Você entrou na casa e antes de me dar um beijo, comeu metade do bolo em cima do fogão com cuidado para não sujar o chão. Sorri abobada e pensei: Esse é o cara da minha vida. Quem sempre me trouxe paz – e acaba com a comida da casa. Prioridades.

A vida nem sempre sorriu pra gente. Mas, a gente sempre fez ao máximo para seguir mesmo assim. Hoje, você já conhece minhas zilhões de expressões, quase não preciso falar. E ainda assim me observa todo dia, mesmo sabendo as respostas que vou dar, o que me faz rir, chorar e o que só uma pizza pode curar. É fogo quando alguém te decora nas coisas mais idiotas do dia a dia. Quando você percebe que é tudo uma coisa só, parte de um todo da vida de alguém. Vamos mudar juntos, a cada dia, as novidades não terão fim. Apenas recomeços. É gostoso de pensar.

“A Isa sente demais”, você diz o tempo inteiro e tem razão. Não me arrependo. Sempre usei de todas as letras para dizer que amo e o quanto amo. Sempre tento dimensionar o que é infinito. Nunca achei verbos suficientes e talvez nunca encontre. E nunca vou me cansar de expressar, sabe, Amor… Como foi bom te encontrar!

Ainda é. Ainda que todo dia no mesmo teto que o meu.

Temos mais umas boas vidas por vir e muitos cafés para tomar.

Foi o que pensei quando passei por aquele lugar.

Obrigada por me fazer sentir tantas coisas boas na vida com tão pouco.
Pessoas como você valem a pena.

AMOR, CRÔNICAS

> Quando a coisa é simples

12/09/2016

O amor é aquela coisa que quase não precisa nomear. A gente sabe.

Quando a coisa funciona não precisa de cobrança. Daquele tipo que invade, incomoda e passa até mesmo a privacidade do outro. A vida tem o seu rumo normal, cada um toca os dias da melhor maneira possível e os caminhos que cruzarem, tudo bem, vamos juntos.

Quando a coisa bate não precisa forçar. Não precisa de jogo, enrolação ou medo do que vai pensar em dizer isso ou aquilo. O medo de ser quem somos desaparece e descobrimos um mundo novo crescendo dentro de nós. Descobrimos ser maiores, queremos conhecer e abraçar o universo do outro para fazer parte do nosso. Mostrar o que amamos e o que nem tanto assim, o que sonhamos e o que imaginamos. O coração aprecia a vida transborda.

Quando a coisa é especial há vontade de se doar nos momentos difíceis e nos clímax dos capítulos da vida. O desejo de não magoar, ver chorar ou brigar por motivos bobos mora na alma. E essa coisa vira quase como um termômetro: criamos jogo de cintura e aprendemos o que importa e o que é coisa para deixar pra lá.

Quando a coisa tem diálogo não existe espaço para achar isso ou aquilo. Se não entendeu direito, manda uma mensagem e se quer esclarecer, senta para um café. Conversar é a chance de enxergarmos a vida com outro ponto de vista. É pá, tchum e pronto. Só existe a vontade de consertar e ver tudo além dos nossos olhos.

Quando a coisa é pura vem o desejo de fazer sorrir e construir uma amizade forte e forjada, que não será fácil de abalar. Duas bases se unem para montar um mundo. Não importa se ele faz isso, ela aquilo, pois quando a pauta é a vida, os dois sabem bem onde querem chegar.

Quando tem a coisa a gente sabe, mesmo sem ter um manual. Mesmo achando que não sabe sentir, a gente sabe. A coisa nos puxa para o nosso estado mais simples e, até por vezes, bobo. Um café, o sol no final da tarde, um guardanapo escrito ou email na madrugada. Nada disso será mais igual.

A coisa também não perdoa e exige esforço. Algumas vezes nos faz chorar e muito. Mas quando voltamos a sorrir, é como se nunca tivéssemos sorrido antes. A coisa vale a pena.

Quando a coisa é simples a gente esquece até de chamar de amor e está tudo bem. É amor, aquele momento da vida em que nos faltam as palavras. A gente não sabe nem explicar. Só vai vivendo – essa coisa toda simplesmente como é.

AMOR, CRÔNICAS, Diálogos

> A VIDA COM OUTROS OLHOS

01/08/2016

Era um dia comum. Nem tão comum assim, pois um pôr do sol incrível misto de amarelo com roxo estampava o nosso céu. Barba e eu andávamos de bicicleta em um passeio normal. Ele ia na frente e eu atrás contando as coisas da vida. Eu, no meu costume hippie de ser, ao ver aquele pôr do sol, gritei: Vamos ter que parar para ver. Até apressei a pedalada para não correr o risco de perder o caminho que o sol fazia ao trocar de lugar com a noite. A beleza era de dar fôlego – pedalei ainda mais rápido.

Estacionei a bicicleta em um ponto que considerava com melhor visão. O ângulo ideal, alinhado e bem limpo. Eu olhava fixamente para o céu com suas cores gritantes e que quase arrancavam uma lágrima. O contorno dos prédios, os carros, o fluxo da vida parecia uma maquete. Ele olhava para o outro lado. O contorno dos troncos de uma árvore que peneirava o sol.

Neste momento, senti o silêncio: o meu e o dele. Aquela confusa sensação de que nunca saberemos 100% o que se passa na cabeça de alguém, pelo simples fato de querer entender o que no outro se esta passando e pensando. Estávamos sorrindo por dentro, isso eu poderia sentir.

Eu e ele, somos uma coisa só. Como uma camiseta que para vestir com a modelagem ideal tem em cada corte objetivos definidos e certeiros, cada ao seu lado. O avesso e o aparente: duas coisas diferentes, necessárias e que cumprem a mesma função.

Apanhei a bicicleta e seguimos a volta que ainda era abençoada com aquela vista. Com os olhos saltando para fora, eu disse:

-Amor, olha alí!

-Olha lá! O reflexo da luz nos prédios…

E eu ajustei o meu ângulo para ver com os olhos dele. A fileira de prédios ao lado daquela enxurrada de cores. As grandes janelas de vidro recebiam o reflexo de uma luz dourada que parecia rastro do outono que já passou. Sorri pra ele.

Dizem que devemos amar quem não quer nos mudar, mas acredito que o amor seja ainda mais simples. O amor vê oportunidades.

O amor tem prazer em enxergar o diferente, a mudança, o que não é igual ao nosso mundo. O amor vê ali uma oportunidade de aprender, em somar e contribuir. O amor nos tira da nossa zona de conforto, nos faz crescer, arriscar, mudar o ângulo e ver. Ver muito além.

Muitas vezes batemos na tecla de que é difícil lidar com as diferenças das pessoas e, eu não digo que não é – realmente é. Mas, digo que há beleza. Há beleza além do que podemos ver, entender ou enxergar. Há beleza e um mundo novo de descobertas e maneiras de ver a vida, através de outro alguém. De outra vida. Do mundo. De um amor.

No final deste dia, eu sorria. Agradeci por ter a chance de poder ver a vida através dos olhos de quem eu amo, convivo e divido a vida.
Na rotina, em um dia comum, os céus podem nos surpreender. Entretanto, é preciso dar chance para enxergar por outras direções também. Vale a pena.